"O amor é um cão dos diabos", diz Bukowski, esse é o título de um de seus livros de poesia. Comprei por isso mesmo, pois Mirna me aparecia mefistotélica, assombrando-me de alguma profundeza infernal. E vi o livro, no jornaleiro, e o quis para mim. Era dia e era claro, mas Mirna tornava tudo nublado, não o escuro-milagre mas o escuro-susto, e eram dias em que eu esperava por uma ligação como que por algo fora desse mundo.
Me lembro bem. O celular tremendo nas mãos, o coração, descompassado, as pernas fluidas como água, a vontade de abandonar tudo e voltar para ela, óbvio, quando e se ela quisesse. E os cães do diabo latindo maliciosos, Mirna, luciferina inquisidora para me expiar os pecados.
Ah, os pecados. Sofremos por muito pouco. Quisera pecar muito mais. Enquanto esperava sentado, lia os poemas de Bukowski. "Agora me pegou de jeito", dizia um deles, algo assim, reproduzo de memória, "agora acusei o golpe". E eu que nos últimos dias nada fazia senão sofrer golpe após golpe a ponto das mãos tremerem, do coração descompassar e das pernas se desmancharem. Mais uma página, mais um poema. Tenho a impressão de parecer ridículo, mas é ilusão: as pessoas enxergam apenas um homem emocionado lendo um livrinho qualquer.
Esperando sentado e lendo Bukowski. O amor é um cão dos diabos, Mirna, Mirna, o sorriso lindo esconde o anjo mau que há em você.