This story is fiction, and any events or near-similar events in actual life which did transpire have not prejudiced the author toward any figures involved or uninvolved; in other words, the mind, the imagination, the creative facilities have been allowed to run freely, and that means invention, of which said is drawn and caused by living one year short of half a century with the human race . . . and is not narrowed down to any specific case, cases, newspaper stories, and was not written to harm, infer or do injustice to any of my fellow creatures involved in circumstances similar to the story to follow.


(Charles Bukowski, "The Murder Of Ramon Vasquez")
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terça-feira, 9 de abril de 2013

Tendo encontrado uma foto antiga nossa

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Tendo encontrado uma foto antiga nossa
pus-me a admirar os detalhes:
eu, sem camisa, os músculos ainda rijos,
ela, cabeça no meu colo, sorrindo
para o fotógrafo (quem era?,
não me lembro mais).

Na foto reparei como
eu olhando pra ela, enternecido
ela, sorriso de clarão de estrelas
tão bem alojada com a cabeça no meu colo
parecíamos uma pintura (de quem?,
algum romântico do séc. XIX).

Pensei em enviar a ela a foto
e perguntar quando, onde, foi tirada
aquela fotografia quase pintura
mas achei uma bobagem, meio infantil
tanto tempo, tive medo (de quê?,
se já estava tudo enterrado).


segunda-feira, 1 de abril de 2013

De amores exemplares

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Amores exemplares, a História
é pródiga deles.

Por exemplo, do fraternal é aquele
entre Vincent e Théo.

Do amor de filho podemos citar
O de Liova para Leon.

Por sua vez de amor materno
é Maria
o exemplo.

João era o discípulo
preferido do Cristo

entre mestre e aluno
exemplares eram
Rumi e Shams de Tabriz.

À Humanidade, amor exemplar
o de um Gandhi?
Aquiesço, mas prefiro cá
o de um Lênin.

Da forma Bilac era amante
e os parnasianos todos.

Da guerra, Marte
Do vinho, Baco

Vênus que aos amores todos instiga
ela própria a ninguém ama.

Ah, entre homem e mulher?
Eu e você

quem sabe?


sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Azul kafkiano

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Azul kafkiano

ouvi a expressão
e gostei

é perfeitamente adequada

é musical, é
excêntrico

e, além disso

(na verdade esse é o motivo
de ter gostado)

ela tem olhos
azuis

azuis kafkianos

porque, mesmo inocente,

me vi prisioneiro
sem direito à apelação.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

De funções vitais

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Vão me perguntar se valeu a pena e direi, claro, óbvio que sim. O final foi seco: não quero mais, ela disse, ok, respondi. Era mentira -minha- mas nada diferente podia ser dito: o amor deve fluir, não serei eu a segurá-lo. Seca, muito seca -ela- e em segundos tudo que se construía em pensamento -filhos e casa, e empregos e carros- tudo desapareceu. Nenhum vestígio. Não quero mais, ela disse, ok, respondi.

Você já fugiu disso? Te chamarei: és covarde. Não me leve a mal. Mas ter medo disso é ter medo da chuva raios sol vento onda pássaros árvores meteoros folhas flores neve. É ter medo da vida, enfim, e vida que se vive com medo da vida não é vida senão morte.

Você tem medo de respirar?

De comer?

De domir?

Também não deveria ter de amar. É outra função vital. Sem isso, não vivemos.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

"Ficaremos juntos", ela prometeu

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sei que ela está ali

como uma promessa a ser cumprida
aqui e agora
hoje ou amanhã ou depois ou para além
do que é infinito

por que não?

uma promessa feita
muitos ciclos de existência atrás
uma promessa feita
com outros lábios, outras vozes
em outros corpos que não estes

por que não?

há quem acredite
em promessas de outras vidas
por que não?

e hoje

ela aqui esperando
o momento
e eu também pleno juramento
todo certeza de que
aquilo prometido
há de se cumprir

o momento chega sempre
toda promessa se cumpre

(se se quebra, não era bem promessa)

mas quando se é verdadeiro
por que não?

ela espera e se consuma

dois mais dois quatro, ebulição gera vapor
eu e ela juntos
tenho certeza disso
como de que o sol nascerá amanhã
a promessa é a natureza que se cumpre

a promessa é só a verdade adiada

mas ainda eu, ansioso,

esperando que mais ciclos não venham
antes da promessa ser cumprida.

domingo, 20 de novembro de 2011

Sem beijo

Um comentário:
sim, é possível transas sem beijo na boca

não é em toda situação que se beija
há aquelas
por acaso as mais impessoais
prostitutas etc.
situações em que não se beija

não se perde muito da foda, verdade
penis in vaginam é sempre
penis in vaginam
mas transas sem beijo
sim, há várias sem isso
são uma coisa engraçada

lá embaixo fluidos e penetração
enquanto aqui em cima
puros
cândidos
os lábios
não se tocam.

virginais.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Chaos theory

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Ela vai embora, e fico estirado na cama. Deixou-me a sós com a poeira e os pensamentos. O quarto acaba por lembrar um cenário de guerra, não apenas pelo caos -não metafórico- do ambiente como pela batalha travada, essa prazerosa porém. Mas também caótica: o caos está sempre presente quando homem e mulher se encontram, e não é na ordem e na harmonia que se conciliam os corpos ofegantes.

Ela deixa nosso pequeno reino de caos e volta para sua vida.

Penso: ela não gostou. O caos foi demais pra ela, não apenas a poeira e os livros pelo chão, ou sequer as paredes descascadas e o cheiro dos cachorros: o caos do meu próprio coração outrora seguro mas hoje reconhecidamente frágil.

Há que juntar os cacos, pedacinho por pedacinho. Fosse cerâmica chinesa. Do caos dos fragmentos espalhados, podemos chegar lá: na paz beatífica. E talvez ela volte, para desarranjar novamente a ordem recém-conquistada.

Afinal, o caos ganha sempre. A ordem é a exceção: é quando Deus está distraído.

domingo, 9 de outubro de 2011

A musa canta nas horas mais impróprias

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Avenida Brasil
Rápido na van
Gelado de ar-condicionado
E música ruim

Escuro lá fora
Carros que passam rápido
E o pensamento nela
Nos neóns dos moteis

Preso no veículo
A caminho de casa
Como desabafar?
E os versos brotam

Sem papel, sem tinta
Contudo os reservo
Para o momento adequado
Deixo-os guardados

Não foram embora, os versos
Deposito-os cuidadoso
Até a hora chegar
De colocar no papel.

sábado, 24 de setembro de 2011

Telefonema

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Nos fundos da Igreja falo com ela, o único lugar, naquele centro de Rio de Janeiro, com um pouco de paz. Jamais colocaria a voz dela para disputar com buzinas e gritos, britadeiras e balbúrdia. E, naquela paz improvisada, ela fala em meu ouvido, e a distância acaba, e ela fala e o universo muda, doce mas não dócil, suave mas rascante. Ouço, falo, ela ouve e fala. "Te amo", digo antes de desligar, um silêncio de microssegundos e vem o "também te amo", e o universo, mudado, jamais volta a ser o que era.

Desligo o telefone. São os sapatos? Não, são nuvens que me carregam. "Eu também te amo", mas isso não resume toda a sabedoria hermética de todos os filósofos-santos-sábios-cientistas do mundo? Apenas essas palavras, eu, também, te, amo, e o segredo da vida se deu por realizado. Quero mais nada, preciso de mais nada.

Deslizo pela cidade. O trabalho continua, preciso ir ao fórum do Méier. Ok, continuemos a labuta. Mas o universo mudou, acho que me movo em outra dimensão, a sétima ou a oitava pós-Einstein, a dimensão para além de Alfa-Centauro, o lugar para onde o "também te amo" me enviou inexoravelmente.

Entro no restaurante, almoçarei antes do Méier. Olho o cardápio e tudo me parece mesquinho. Olho as mesas ao redor, olho a garçonete. Tudo me parece subitamente mesquinho. Olho novamente ao redor e me vejo, assomando em espírito, gritando alto para todos: "Os senhores precisam almoçar? Eu não. Isso é pequeno para mim. Já estou bem nutrido, 'também te amo' é alimento para a vida inteira!"

domingo, 24 de abril de 2011

Rápido sonho com ela

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Sonhou com ela, e em consequência a manhã toda se arrastou estranha. Talvez por ter perguntado por ela, talvez por uma nostalgia meio infantil, mas sonhou com ela, e foi bom o sonho. Abraços e beijos como um reencontro, ela excitada por lhe ver, lhe tocar, anos e anos e anos depois. A barriga cresceu e o cabelo já grisalho. Já ela, pelo menos no sonho, linda como sempre. Tanto assunto para colocar em dia! E ela sorrindo, nos seus braços, querendo nada a não ser ele.

Chuvoso lá fora. Golpe insidioso do Destino, fazê-lo sonhar com ela, agora que está tudo bem, agora que passou. Anos depois. Mas ei-la de novo, lhe assombrando como um fantasma antigo. Chove lá fora e teve, há pouco, um fantasma nos seus braços oníricos: morena e de longos cabelos perfumados. Como ela é nas suas lembranças. Dos cabelos não esquece jamais, como desciam pelos ombros, os olhos brilhando quando sorriam para ele.

Agora brilham para o marido. Viu no Facebook. Pobre coitado. Daria conta? Pois ela não é pra qualquer um. Não para um loser com o marido parecia ser.

Despeito puro, admitiu, e riu baixinho para si próprio.

Hoje é sábado, terá boteco logo mais. O fantasma moreno de olhos brilhantes lhe assombrando, o remédio era encher a cara.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O mar me roubou ela

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Ela estava numa posição defensiva: sentada na areia, os braços envolvendo os joelhos. Fazia frio e a maresia trazia um cheiro gostoso de mar. Eu estava um pouco atrás, também sentado abraçando as pernas. Meio que não sabia o que dizer. Como romper a postura defensiva, como desviar a atenção dela: das ondas do mar para mim.

"Olha", ela disse súbito, sem se virar, "não tenho tido vontade de estar com ninguém". Para bom entendedor, meia-palavra basta. Não respondi: o único barulho era o das ondas. Há pouco tínhamos nos amassado, ainda no calçadão. Mas foi sentar na areia, foi sentir a brisa marítima e ouvir as ondas, que ela entrou num estado de torpor, algo catatônico. Pensando em sei lá o quê- mas não era em mim.

Fui trocado pelo mar.

Ou era a lembrança de outro sujeito, talvez areia molhada a fizesse lembrar dele.

"Eu entendo", respondi. "Também estou nessa fase", continuei, e era mentira, porque o que eu mais queria era retomar o amasso, língua com língua e mãos pelo corpo, como fizemos há pouco. Mas, reparem bem: não era mera luxúria. Tesão há sempre (tenho 19 anos recém-completos!), mas havia algo mais me cutucando. Apaixonado, não digo, encantado, enfeitiçado, maravilhado- isso eu digo. E o vento e a maresia também mexeram comigo, daí deu de repente vontade de chorar: entrei no catatonismo, que nem ela. Também a troquei pelo mar, mas olhem que coisa esquisita, nessa troca pelo mar ela também estava presente, tipo, não a queria mais e sim ao mar, mas o mar que eu queria eu queria por causa dela.

Coisa confusa. Só tenho 19 anos, não devia ser profundo assim. Deixemos que o mar seja profundo. Eu, não.

Olhei pra ela de novo. Esqueceu-me de vez: o mar, o mar, o mar, eu não era nada. Zero a zero. Merda.

Cansei daquilo e me levantei, batendo na bunda com as mãos para tirar a areia úmida que grudara. Soltei um "fui!" seco, solene, orgulhoso como um rei babilônico, e tomei o rumo do calçadão. Mãos no bolso, sem olhar pra trás, uma bruta ereção frustrada dentro da calça.

Ela, nem aí. Sentada na areia abraçando os joelhos, era atenção só para o mar.

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