This story is fiction, and any events or near-similar events in actual life which did transpire have not prejudiced the author toward any figures involved or uninvolved; in other words, the mind, the imagination, the creative facilities have been allowed to run freely, and that means invention, of which said is drawn and caused by living one year short of half a century with the human race . . . and is not narrowed down to any specific case, cases, newspaper stories, and was not written to harm, infer or do injustice to any of my fellow creatures involved in circumstances similar to the story to follow.


(Charles Bukowski, "The Murder Of Ramon Vasquez")

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

De funções vitais

Um comentário:
Vão me perguntar se valeu a pena e direi, claro, óbvio que sim. O final foi seco: não quero mais, ela disse, ok, respondi. Era mentira -minha- mas nada diferente podia ser dito: o amor deve fluir, não serei eu a segurá-lo. Seca, muito seca -ela- e em segundos tudo que se construía em pensamento -filhos e casa, e empregos e carros- tudo desapareceu. Nenhum vestígio. Não quero mais, ela disse, ok, respondi.

Você já fugiu disso? Te chamarei: és covarde. Não me leve a mal. Mas ter medo disso é ter medo da chuva raios sol vento onda pássaros árvores meteoros folhas flores neve. É ter medo da vida, enfim, e vida que se vive com medo da vida não é vida senão morte.

Você tem medo de respirar?

De comer?

De domir?

Também não deveria ter de amar. É outra função vital. Sem isso, não vivemos.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A viagem da lua

Nenhum comentário:
"Quando me sinto mal sinto uma dor aqui", e ele apontou pro lado esquerdo do flanco, o fígado, o pâncreas, sei lá, nada entendo de anatomia. "É assim mesmo", eu falei, "isso se chama SOMATIZAR", bem pronunciado, pois ele certamente nunca ouvira aquela palavra. "É quando o corpo é afetado pelo emocional", e ele fez careta e mais não disse.

Pro diabo dores no corpo. O mundo inteiro é uma grande chaga: dor por toda parte. Mas não disse isso a ele, ia botar culpa na bebida ou, pior ainda, na amargura pela derrota do meu time.

"Ei, conversou com ela?", perguntou, "e aí?". E aí que não deu em nada, tiro n’água, ele fez careta de novo, ao menos você tentou né, é, e mais não disse.

"Ei, cara, é a dor de novo, acho que deveria parar de beber", e apalpou o local, e fez careta de novo, e mais não disse. "Pare de beber", concordei, pare de beber e de respirar, e de comer também, acrescentei, e ele estranhou e expliquei, beber é uma necessidade humana, todas as culturas sempre beberam e beberam, às vezes é a única coisa que resta.

"Pô, cara, nada a ver, você tá viajando", fez careta mais nada dizendo.

Eu decerto estava viajando.

Olhei pra lua alva feito ovo já despontando. Viajávamos nós todos, a lua também, literalmente falando. Tudo se move, a via-láctea inclusive, não há nada estático. Viajamos.

Mas à pergunta, "para onde?", silêncio total.

Lembrei dela dizendo, "que vida difícil". Dei o último gole, fiz uma careta e mais não disse.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

"Ficaremos juntos", ela prometeu

Nenhum comentário:
sei que ela está ali

como uma promessa a ser cumprida
aqui e agora
hoje ou amanhã ou depois ou para além
do que é infinito

por que não?

uma promessa feita
muitos ciclos de existência atrás
uma promessa feita
com outros lábios, outras vozes
em outros corpos que não estes

por que não?

há quem acredite
em promessas de outras vidas
por que não?

e hoje

ela aqui esperando
o momento
e eu também pleno juramento
todo certeza de que
aquilo prometido
há de se cumprir

o momento chega sempre
toda promessa se cumpre

(se se quebra, não era bem promessa)

mas quando se é verdadeiro
por que não?

ela espera e se consuma

dois mais dois quatro, ebulição gera vapor
eu e ela juntos
tenho certeza disso
como de que o sol nascerá amanhã
a promessa é a natureza que se cumpre

a promessa é só a verdade adiada

mas ainda eu, ansioso,

esperando que mais ciclos não venham
antes da promessa ser cumprida.

domingo, 20 de novembro de 2011

Sem beijo

Um comentário:
sim, é possível transas sem beijo na boca

não é em toda situação que se beija
há aquelas
por acaso as mais impessoais
prostitutas etc.
situações em que não se beija

não se perde muito da foda, verdade
penis in vaginam é sempre
penis in vaginam
mas transas sem beijo
sim, há várias sem isso
são uma coisa engraçada

lá embaixo fluidos e penetração
enquanto aqui em cima
puros
cândidos
os lábios
não se tocam.

virginais.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Chaos theory

Nenhum comentário:
Ela vai embora, e fico estirado na cama. Deixou-me a sós com a poeira e os pensamentos. O quarto acaba por lembrar um cenário de guerra, não apenas pelo caos -não metafórico- do ambiente como pela batalha travada, essa prazerosa porém. Mas também caótica: o caos está sempre presente quando homem e mulher se encontram, e não é na ordem e na harmonia que se conciliam os corpos ofegantes.

Ela deixa nosso pequeno reino de caos e volta para sua vida.

Penso: ela não gostou. O caos foi demais pra ela, não apenas a poeira e os livros pelo chão, ou sequer as paredes descascadas e o cheiro dos cachorros: o caos do meu próprio coração outrora seguro mas hoje reconhecidamente frágil.

Há que juntar os cacos, pedacinho por pedacinho. Fosse cerâmica chinesa. Do caos dos fragmentos espalhados, podemos chegar lá: na paz beatífica. E talvez ela volte, para desarranjar novamente a ordem recém-conquistada.

Afinal, o caos ganha sempre. A ordem é a exceção: é quando Deus está distraído.

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...