sim, é possível transas sem beijo na boca
não é em toda situação que se beija
há aquelas
por acaso as mais impessoais
prostitutas etc.
situações em que não se beija
não se perde muito da foda, verdade
penis in vaginam é sempre
penis in vaginam
mas transas sem beijo
sim, há várias sem isso
são uma coisa engraçada
lá embaixo fluidos e penetração
enquanto aqui em cima
puros
cândidos
os lábios
não se tocam.
virginais.
Páginas
This story is fiction, and any events or near-similar events in actual life which did transpire have not prejudiced the author toward any figures involved or uninvolved; in other words, the mind, the imagination, the creative facilities have been allowed to run freely, and that means invention, of which said is drawn and caused by living one year short of half a century with the human race . . . and is not narrowed down to any specific case, cases, newspaper stories, and was not written to harm, infer or do injustice to any of my fellow creatures involved in circumstances similar to the story to follow.
(Charles Bukowski, "The Murder Of Ramon Vasquez")
domingo, 20 de novembro de 2011
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Chaos theory
Ela vai embora, e fico estirado na cama. Deixou-me a sós com a poeira e os pensamentos. O quarto acaba por lembrar um cenário de guerra, não apenas pelo caos -não metafórico- do ambiente como pela batalha travada, essa prazerosa porém. Mas também caótica: o caos está sempre presente quando homem e mulher se encontram, e não é na ordem e na harmonia que se conciliam os corpos ofegantes.
Ela deixa nosso pequeno reino de caos e volta para sua vida.
Penso: ela não gostou. O caos foi demais pra ela, não apenas a poeira e os livros pelo chão, ou sequer as paredes descascadas e o cheiro dos cachorros: o caos do meu próprio coração outrora seguro mas hoje reconhecidamente frágil.
Há que juntar os cacos, pedacinho por pedacinho. Fosse cerâmica chinesa. Do caos dos fragmentos espalhados, podemos chegar lá: na paz beatífica. E talvez ela volte, para desarranjar novamente a ordem recém-conquistada.
Afinal, o caos ganha sempre. A ordem é a exceção: é quando Deus está distraído.
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Tolo coração
domingo, 9 de outubro de 2011
A musa canta nas horas mais impróprias
Avenida Brasil
Rápido na van
Gelado de ar-condicionado
E música ruim
Escuro lá fora
Carros que passam rápido
E o pensamento nela
Nos neóns dos moteis
Preso no veículo
A caminho de casa
Como desabafar?
E os versos brotam
Sem papel, sem tinta
Contudo os reservo
Para o momento adequado
Deixo-os guardados
Não foram embora, os versos
Deposito-os cuidadoso
Até a hora chegar
De colocar no papel.
Rápido na van
Gelado de ar-condicionado
E música ruim
Escuro lá fora
Carros que passam rápido
E o pensamento nela
Nos neóns dos moteis
Preso no veículo
A caminho de casa
Como desabafar?
E os versos brotam
Sem papel, sem tinta
Contudo os reservo
Para o momento adequado
Deixo-os guardados
Não foram embora, os versos
Deposito-os cuidadoso
Até a hora chegar
De colocar no papel.
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sábado, 24 de setembro de 2011
Telefonema
Nos fundos da Igreja falo com ela, o único lugar, naquele centro de Rio de Janeiro, com um pouco de paz. Jamais colocaria a voz dela para disputar com buzinas e gritos, britadeiras e balbúrdia. E, naquela paz improvisada, ela fala em meu ouvido, e a distância acaba, e ela fala e o universo muda, doce mas não dócil, suave mas rascante. Ouço, falo, ela ouve e fala. "Te amo", digo antes de desligar, um silêncio de microssegundos e vem o "também te amo", e o universo, mudado, jamais volta a ser o que era.
Desligo o telefone. São os sapatos? Não, são nuvens que me carregam. "Eu também te amo", mas isso não resume toda a sabedoria hermética de todos os filósofos-santos-sábios-cientistas do mundo? Apenas essas palavras, eu, também, te, amo, e o segredo da vida se deu por realizado. Quero mais nada, preciso de mais nada.
Deslizo pela cidade. O trabalho continua, preciso ir ao fórum do Méier. Ok, continuemos a labuta. Mas o universo mudou, acho que me movo em outra dimensão, a sétima ou a oitava pós-Einstein, a dimensão para além de Alfa-Centauro, o lugar para onde o "também te amo" me enviou inexoravelmente.
Entro no restaurante, almoçarei antes do Méier. Olho o cardápio e tudo me parece mesquinho. Olho as mesas ao redor, olho a garçonete. Tudo me parece subitamente mesquinho. Olho novamente ao redor e me vejo, assomando em espírito, gritando alto para todos: "Os senhores precisam almoçar? Eu não. Isso é pequeno para mim. Já estou bem nutrido, 'também te amo' é alimento para a vida inteira!"
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terça-feira, 23 de agosto de 2011
Pobre de espírito
-"A pior miséria é a espiritual", ele disse. "É olhar pro céu e ver a lua, mas não poder alcançá-la porque os pés estão enterrados na lama".
-"Mas quem é pobre de espírito quer alcançar a lua?", perguntei.
-"Claro. Assim como o pobre de grana olha o ouro do rico e quer pra si".
Bem pensado. O céu é um burguês avaro e queremos expropriá-lo de estrelas.
Uma nova ida ao freezer para pegar mais cerveja. Ela estava lá, dançando com os outros. Eu deveria dançar também se quisesse ter alguma chance, mas ficava cá ouvindo sobre assaltos ao céu.
-"Ei, traz pra mim também!", gritou o filósofo da varanda onde estávamos.
-"Escute, cara, não faz sentido isso que você falou", eu disse entregando a cerveja gelada. "Você está sofismando. O pobre de espírito sequer tem noção da beleza da lua. Olha pra ela e só vê um pedaço bobo de rocha flutuando. Sua comparação com pobres, ricos e ouro é inadequada".
Ele gargalhou, abrindo a lata sonoramente. Na sala transformada em pista o clima esquentava, e ela lá no meio dançando com os idiotas.
Eu continuei, disposto a provar meu ponto: -"O pobre REAL quer o ouro do rico porque sente uma necessidade REAL. O estômago ronca, o corpo sente frio, e o ouro serve para corrigir isso. Mas o pobre ESPIRITUAL não tem noção de sua fome, de sua necessidade. Olha pra lua e não vê nada de mais, prefere continuar na lama. Só iria querer a lua se tivesse conhecimento de sua riqueza, mas se tivesse conhecimento da riqueza da lua não seria mais um pobre de espírito. Portanto, você está sofismando". E também abri minha latinha.
Dessa vez ele me olhou sério, desceu outro gole, então riu baixinho pra si próprio. -"Vem cá", começou, "o estômago não sabe de sua fome, sabe? Mas é uma necessidade...O ESPÍRITO também sente essa necessidade. Mesmo que não saiba. E na maioria das pessoas não sabe mesmo". E mandou ver outro gole.
Silêncio. Ele terminou a lata e acendeu um cigarro, olhando pro povo dançando na sala. Continuamos o xadrez mental. Até que, por volta das 3 da manhã, desligaram o som e eu já estava empapuçado de cerveja.
Foi então que percebi ela, num cantinho escuro da parede, aos amassos com um indivíduo. Fiquei com cara de bunda, naturalmente, e o filósofo percebeu.
-"Pô, véio", ele disse me dando um tapinha nas costas. "-Perdeu esse tempo todo no papo furado aqui ao invés de chegar nela? Que merda, hein?"
Daí dei um soco nele. Pano rápido.
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Na noite boêmia
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