Avenida Brasil
Rápido na van
Gelado de ar-condicionado
E música ruim
Escuro lá fora
Carros que passam rápido
E o pensamento nela
Nos neóns dos moteis
Preso no veículo
A caminho de casa
Como desabafar?
E os versos brotam
Sem papel, sem tinta
Contudo os reservo
Para o momento adequado
Deixo-os guardados
Não foram embora, os versos
Deposito-os cuidadoso
Até a hora chegar
De colocar no papel.
Páginas
This story is fiction, and any events or near-similar events in actual life which did transpire have not prejudiced the author toward any figures involved or uninvolved; in other words, the mind, the imagination, the creative facilities have been allowed to run freely, and that means invention, of which said is drawn and caused by living one year short of half a century with the human race . . . and is not narrowed down to any specific case, cases, newspaper stories, and was not written to harm, infer or do injustice to any of my fellow creatures involved in circumstances similar to the story to follow.
(Charles Bukowski, "The Murder Of Ramon Vasquez")
domingo, 9 de outubro de 2011
sábado, 24 de setembro de 2011
Telefonema
Nos fundos da Igreja falo com ela, o único lugar, naquele centro de Rio de Janeiro, com um pouco de paz. Jamais colocaria a voz dela para disputar com buzinas e gritos, britadeiras e balbúrdia. E, naquela paz improvisada, ela fala em meu ouvido, e a distância acaba, e ela fala e o universo muda, doce mas não dócil, suave mas rascante. Ouço, falo, ela ouve e fala. "Te amo", digo antes de desligar, um silêncio de microssegundos e vem o "também te amo", e o universo, mudado, jamais volta a ser o que era.
Desligo o telefone. São os sapatos? Não, são nuvens que me carregam. "Eu também te amo", mas isso não resume toda a sabedoria hermética de todos os filósofos-santos-sábios-cientistas do mundo? Apenas essas palavras, eu, também, te, amo, e o segredo da vida se deu por realizado. Quero mais nada, preciso de mais nada.
Deslizo pela cidade. O trabalho continua, preciso ir ao fórum do Méier. Ok, continuemos a labuta. Mas o universo mudou, acho que me movo em outra dimensão, a sétima ou a oitava pós-Einstein, a dimensão para além de Alfa-Centauro, o lugar para onde o "também te amo" me enviou inexoravelmente.
Entro no restaurante, almoçarei antes do Méier. Olho o cardápio e tudo me parece mesquinho. Olho as mesas ao redor, olho a garçonete. Tudo me parece subitamente mesquinho. Olho novamente ao redor e me vejo, assomando em espírito, gritando alto para todos: "Os senhores precisam almoçar? Eu não. Isso é pequeno para mim. Já estou bem nutrido, 'também te amo' é alimento para a vida inteira!"
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Tolo coração
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Pobre de espírito
-"A pior miséria é a espiritual", ele disse. "É olhar pro céu e ver a lua, mas não poder alcançá-la porque os pés estão enterrados na lama".
-"Mas quem é pobre de espírito quer alcançar a lua?", perguntei.
-"Claro. Assim como o pobre de grana olha o ouro do rico e quer pra si".
Bem pensado. O céu é um burguês avaro e queremos expropriá-lo de estrelas.
Uma nova ida ao freezer para pegar mais cerveja. Ela estava lá, dançando com os outros. Eu deveria dançar também se quisesse ter alguma chance, mas ficava cá ouvindo sobre assaltos ao céu.
-"Ei, traz pra mim também!", gritou o filósofo da varanda onde estávamos.
-"Escute, cara, não faz sentido isso que você falou", eu disse entregando a cerveja gelada. "Você está sofismando. O pobre de espírito sequer tem noção da beleza da lua. Olha pra ela e só vê um pedaço bobo de rocha flutuando. Sua comparação com pobres, ricos e ouro é inadequada".
Ele gargalhou, abrindo a lata sonoramente. Na sala transformada em pista o clima esquentava, e ela lá no meio dançando com os idiotas.
Eu continuei, disposto a provar meu ponto: -"O pobre REAL quer o ouro do rico porque sente uma necessidade REAL. O estômago ronca, o corpo sente frio, e o ouro serve para corrigir isso. Mas o pobre ESPIRITUAL não tem noção de sua fome, de sua necessidade. Olha pra lua e não vê nada de mais, prefere continuar na lama. Só iria querer a lua se tivesse conhecimento de sua riqueza, mas se tivesse conhecimento da riqueza da lua não seria mais um pobre de espírito. Portanto, você está sofismando". E também abri minha latinha.
Dessa vez ele me olhou sério, desceu outro gole, então riu baixinho pra si próprio. -"Vem cá", começou, "o estômago não sabe de sua fome, sabe? Mas é uma necessidade...O ESPÍRITO também sente essa necessidade. Mesmo que não saiba. E na maioria das pessoas não sabe mesmo". E mandou ver outro gole.
Silêncio. Ele terminou a lata e acendeu um cigarro, olhando pro povo dançando na sala. Continuamos o xadrez mental. Até que, por volta das 3 da manhã, desligaram o som e eu já estava empapuçado de cerveja.
Foi então que percebi ela, num cantinho escuro da parede, aos amassos com um indivíduo. Fiquei com cara de bunda, naturalmente, e o filósofo percebeu.
-"Pô, véio", ele disse me dando um tapinha nas costas. "-Perdeu esse tempo todo no papo furado aqui ao invés de chegar nela? Que merda, hein?"
Daí dei um soco nele. Pano rápido.
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Na noite boêmia
terça-feira, 19 de julho de 2011
Banheiro interrompido
Esvaziar a bexiga cheia de cerveja é um prazer às raias do sexual. Quanto mais apertados estamos, mais desce rasgando na hora de liberar, e vem aquele gemido de alívio, aquela agonia toda descendo dourado-cristalina vaso sanitário abaixo. Conforme o aperto até sorrimos satisfeitos ao final. "Às vezes uma mijada é melhor que uma gozada", dizia um amigo meu, e tirando o exagero tem um fundo de razão. Além de tudo é diurético! Como podem implicar tanto assim com a cerveja, esse nobre elixir?
Estava eu então, devolvendo aquela cerveja toda, quando sinto a portinhola atrás de mim se abrindo. "Que porra é essa", pensei, "será que não se pode mais mijar sossegado?" Naquele boteco não havia banheiro masculino. Era uma cabinezinha de nada, com uma espécie de porta de saloon na entrada, com espaço suficiente para apenas uma ÚNICA pessoa. E aquela ÚNICA pessoa, no momento, era EU.
Olhei pra trás, acabando de esvaziar a bexiga. Era um sujeito, entrando meio cambaleante. "Ô, tem gente", eu disse. O sujeito me olhou desorientado mas ignorou meu alerta: queria se espremer comigo na cabine, onde só cabia uma ÚNICA pessoa. Nem fedendo que ia dividir o mictório com outro cabra. Mas como já tinha acabado, seria infantil ocupar a cabine por picuinha. Assim, me espremendo com o invasor, saí de lá, cedendo o lugar. Mas como fiquei puto com aqueles maus modos, encarei o sujeito e perguntei:
- "Tu mora onde?"
O sujeito me encarou sem dizer nada.
- "Tu mora na Ladeira?", perguntei de novo.
A Ladeira, bem entendido. Ladeira dos Tabajaras em Copacabana, acesso ao Morro dos Tabajaras. O bar ficava quase aos pés da favela. Perguntar se o sujeito morava lá era, além de intimidá-lo, uma forma de me proteger: vai que morava mesmo lá e estava "garantido". Mas não respondeu, ficou me encarando confusamente e balbuciando coisas ininteligíveis.
Perdi a paciência e voltei para o balcão do bar, onde minha cerveja já esquentava. Leandro continuava lá no mesmo lugar. Conosco estava algo como uma princesa africana, alta, mais alta do que eu, alta e exótica: visual nagô dos espaços, afromarciana, astronáuticonigeriana, congocosmogônica. A variedade humana de Copacabana é assombrosa: apenas lá podemos beber cerveja com princesas yorubá-futuristas.
Conversávamos então os três, eu e Leandro próximos ao balcão, em um degrau mais alto, a Princesa Africana ao nível do chão, de costas para a rua. Já tinha até esquecido o incidente do banheiro, quando vejo o intruso lá, a poucos metros. Cochichando com outro indivíduo e olhando em minha direção.
- "Olha, foi aquele ali", sussurrou o intruso do banheiro para o comparsa. "Foi aquele ali", repetiu malevolamente com olhar lesado de réptil bêbado.
Qual o quê. Sou filho de Ogum Guerreiro. Mantive a dupla em meu campo de visão, de soslaio, e me afastei alguns passos de Leandro e da Princesa Africana. Deixei a garrafa de cerveja ao alcance da minha mão. Ao menor sinal de ataque, desceria aquilo com toda força nos cornos do primeiro que ousasse.
Podem vir, sacanas.
Não bastasse interromper minha mijada, ainda querem confusão?
Podem vir.
Leandro e a Princesa Africana conversavam animadamente, cigarro atrás de cigarro, virando suas cervejas, sem perceberem a tensão no ar. Acho que ninguém no bar percebia: eram apenas eu, olhando de soslaio e pronto para reagir, e o mala do banheiro com o comparsa.
- "Deixa, cara, esquece isso", o comparsa disse. Sussurrou com o outro mas pude ouvir.
Finalmente alguém com bom senso, pensei.
- "Deixa pra lá", o comparsa repetiu. O mala do banheiro, tendo perdido seu único apoio, olhou desorientado, pro comparsa, pra mim, pro comparsa de novo, e então abaixou a cabeça. Acho até que continuaram pelo bar, mas não tornaram a perturbar. Parei de prestar atenção neles, em todo caso. Estava perdendo a conversa com a Princesa Africana e, jesus, não é todo dia que se bebe cerveja com uma Princesa Africana.
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Na noite boêmia
sábado, 25 de junho de 2011
Amor de bordel
Era o baixo meretrício, mas não que preferisse. O que o bolso podia, o que era mais perto. Chegar lá era perigoso, por meio de tantas vielas escuras, mas o baixo meretrício em si estava sempre animado e iluminado, um verdadeiro porto seguro: os cafetões não permitem balbúrdia em sua área. Uma vez lá era um gigantesco supermercado de fêmeas, todos os tipos, cores e padrões, ao cliente bastando escolher, mas os clientes também eram mercadoria, deixando lá semanalmente seus suados trocados de proletário. Elas por elas, todos satisfeitos.
Ela -a moça que ele escolheu- parecia voluptosa. Femme fatale da madrugada decadente. Mas uma vez acertado o preço, uma vez dentro do quarto, uma vez tirando a roupa, era apenas uma menina. 18 anos. Pediu para continuar de sutiã: estava amamentando, não queria espirrar leite no cliente. Criança gerando outra, o bebê com a avó enquanto a mãe-menina cumpria sua jornada noturna. O cliente aceitou. Estava pagando, podia exigir o que quisesse, mas deu de ombros. Então ele percebeu que ela tinha o corpo manchado, manchas desbotadas, tratáveis com qualquer pomada barata. Não ligou para isso, não era homem de ninharias. Se não refugou com a possibilidade de receber uma esguichada de leite, não iria ligar para uma pele desbotada.
Daí ela o abraçou passionalmente. Como uma namorada apaixonada. "Sua voz é linda", ela disse, "fala no meu ouvido". Ele tinha voz bonita mesmo. Achou graça e sussurrou qualquer besteira no ouvido dela. Risinhos, mais abraços. Beijo na boca seria muito: putas não beijam. Ela respeitava a regra, mas o abraçava, o apalpava como a um namorado.
Mas os hormônios apressavam as coisas. Ele não queria namoradas, veio por um motivo, e pagara por isso. Pouco, é verdade -afinal era o baixo meretrício- mas pagara. Nas cabines ao lado já começavam os gemidos inconfundíveis. Cabines, vejam bem, não quartos- era o baixo meretrício, afinal de contas.
E ela era profissional. Voltou a ser voluptuosa como lá fora, a força uterina redescoberta. E ele tomou posse do que lhe pertencia. Ao final esvaziou os bolsos e ela ainda pediu um "agrado", ele nunca soube dizer não, ia fazer falta ao longo da semana, mas ele nunca soube dizer não. Todos mercadorias, eu avisei.
No mês seguinte, com o salário de operário recomposto, voltou lá: mas apenas por ela, apenas por causa dela. Deu dezenas de voltas, mas não a encontrou em lugar nenhum. Pensou em perguntar por ela, mas teve vergonha. Qual era mesmo o nome daquele filme? "Uma linda mulher", que coisa cafona. Sentiu-se um Richard Gere piorado e voltou para casa. Ela também não era lá nenhuma Julia Roberts.
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