This story is fiction, and any events or near-similar events in actual life which did transpire have not prejudiced the author toward any figures involved or uninvolved; in other words, the mind, the imagination, the creative facilities have been allowed to run freely, and that means invention, of which said is drawn and caused by living one year short of half a century with the human race . . . and is not narrowed down to any specific case, cases, newspaper stories, and was not written to harm, infer or do injustice to any of my fellow creatures involved in circumstances similar to the story to follow.


(Charles Bukowski, "The Murder Of Ramon Vasquez")

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O poeta viajante

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muito bem assim, então
por ora
nada a fazer
senão
no saguão do aeroporto
escrever versos
em papel pardo

para trás já tudo
os versos não
estes leva-os consigo
na jornada
companheiros.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Paranoia na noite

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Precisei informá-lo mais uma vez: "-Não, o sujeito não está olhando pra você". Porque Rodolfo, quando encasquetava com algo, era capaz de passar a noite remoendo o assunto. Daí estava lá agora, em pé, tenso, olhando com o rabo de olho para o suposto adversário. O suor escorria pelas têmporas, a testa de veias dilatas brilhando como nunca. A cara de um verdadeiro assassino, e o suposto adversário, totalmente alheio a tudo, afinal o sujeito não estava mesmo olhando para Rodolfo.

Paranoia. O que fosse, não sou psiquiatra.

"-Rodolfo, relaxe. Dê seu copo pra eu encher". Álcool é relaxante, não é mesmo? Despejei mais cerveja para ele, que bebericava sem perder o suposto adversário de vista. E tudo corria na mesma, o barulho na rua defronte, a rua movimentada de bares onde estávamos, caixas de som pululando ao redor. Gente de todos os matizes. Pensando bem, não era mesmo um ambiente relaxante, com o álcool que fosse. Paranoicos como Rodolfo precisam de momentos serenos, como um chá das cinco com a vovó ou uma ária no Theatro Municipal, se é que alguém em sã consciência (repetindo, não sou psiquiatra) consegue imaginar Rodolfo num chá das cinco ou ouvindo ária.

O trabalho artesanal, entre os soldados orientais do passado, era incentivado. Para contrabalancear com toda a violência da guerra, um toque de sensibilidade em nervos graníticos. Arte acalma, álcool acalma, tudo acalma, e olhar as meninas passando também acalma bastante, e é o que Rodolfo deveria fazer ao invés de se preocupar com um suposto adversário lhe encarando.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Refresco aguado enquanto espero ela

2 comentários:
Esperava a ligação dela, impacientemente. Passado o encontro, com companheiros de uma força política, a ansiedade, esquecida momentaneamente, voltou com tudo. Despedi-me dos companheiros e tomei lentamente o rumo de casa, conferindo de minuto a minuto o celular, esperando o chamado, o recado, algo qualquer. Cinelândia, Passeio Público. E a fome (dela também, mas me refiro à do estômago), e parei em uma padaria. Salgados e pães muito pouco apetitosos, alimento pouco apetecível ao espírito; mas era tarde e outras opções não havia, era preciso mandar algo pra dentro, saco vazio não para em pé. Pedi um sanduíche de presunto, presunto azedo, percebi já nas primeiras mordidas, empurrei pra dentro o máximo que consegui ajudado pelo refresco aguado de maracujá. E retomei o rumo de casa.

Nada de Mirna dar notícias. Subia as ruas como um bêbado, cambaleando agora não só de fome como de enjôo, o sanduíche caíra muito mal no estômago. Mas é só o celular tocar e tudo passará, tem sido assim com ela, as pequenas coisas se tornam ainda menores quando se fala com Mirna. Mirna, a menina com o dom de apequenar todo o resto. Eu? O contrário, com ela me sentia grande.

Já em casa, no quarto. Recomposto, banho tomado, estirado na cama- e é agora que Mirna entra em contato, a mensagem direta na tela de brilho suave do celular, "você vai me ligar?", como não, minha menina, tudo se apequena outra vez e já estou cá discando os números.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

De funções vitais

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Vão me perguntar se valeu a pena e direi, claro, óbvio que sim. O final foi seco: não quero mais, ela disse, ok, respondi. Era mentira -minha- mas nada diferente podia ser dito: o amor deve fluir, não serei eu a segurá-lo. Seca, muito seca -ela- e em segundos tudo que se construía em pensamento -filhos e casa, e empregos e carros- tudo desapareceu. Nenhum vestígio. Não quero mais, ela disse, ok, respondi.

Você já fugiu disso? Te chamarei: és covarde. Não me leve a mal. Mas ter medo disso é ter medo da chuva raios sol vento onda pássaros árvores meteoros folhas flores neve. É ter medo da vida, enfim, e vida que se vive com medo da vida não é vida senão morte.

Você tem medo de respirar?

De comer?

De domir?

Também não deveria ter de amar. É outra função vital. Sem isso, não vivemos.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A viagem da lua

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"Quando me sinto mal sinto uma dor aqui", e ele apontou pro lado esquerdo do flanco, o fígado, o pâncreas, sei lá, nada entendo de anatomia. "É assim mesmo", eu falei, "isso se chama SOMATIZAR", bem pronunciado, pois ele certamente nunca ouvira aquela palavra. "É quando o corpo é afetado pelo emocional", e ele fez careta e mais não disse.

Pro diabo dores no corpo. O mundo inteiro é uma grande chaga: dor por toda parte. Mas não disse isso a ele, ia botar culpa na bebida ou, pior ainda, na amargura pela derrota do meu time.

"Ei, conversou com ela?", perguntou, "e aí?". E aí que não deu em nada, tiro n’água, ele fez careta de novo, ao menos você tentou né, é, e mais não disse.

"Ei, cara, é a dor de novo, acho que deveria parar de beber", e apalpou o local, e fez careta de novo, e mais não disse. "Pare de beber", concordei, pare de beber e de respirar, e de comer também, acrescentei, e ele estranhou e expliquei, beber é uma necessidade humana, todas as culturas sempre beberam e beberam, às vezes é a única coisa que resta.

"Pô, cara, nada a ver, você tá viajando", fez careta mais nada dizendo.

Eu decerto estava viajando.

Olhei pra lua alva feito ovo já despontando. Viajávamos nós todos, a lua também, literalmente falando. Tudo se move, a via-láctea inclusive, não há nada estático. Viajamos.

Mas à pergunta, "para onde?", silêncio total.

Lembrei dela dizendo, "que vida difícil". Dei o último gole, fiz uma careta e mais não disse.

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