This story is fiction, and any events or near-similar events in actual life which did transpire have not prejudiced the author toward any figures involved or uninvolved; in other words, the mind, the imagination, the creative facilities have been allowed to run freely, and that means invention, of which said is drawn and caused by living one year short of half a century with the human race . . . and is not narrowed down to any specific case, cases, newspaper stories, and was not written to harm, infer or do injustice to any of my fellow creatures involved in circumstances similar to the story to follow.


(Charles Bukowski, "The Murder Of Ramon Vasquez")

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Confundir? Sei...

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O BBB colocou uma transsexual no programa, Ariadna, e, pelo que ouvi por alto (porque não acompanho esse subproduto cultural), a intenção era manter o detalhe em segredo para confundir os participantes (era, porque Ariadna já foi eliminada, inclusive com uma votação que achei até alta para um primeiro paredão, mas não, não acompanho subprodutos culturais). Tudo bem, mas eu acho sinceramente que só se engana quem quer. Não sei ao certo: mas por mais perfeita que seja a "transformação" (com intervenções cirúrgicas e tudo) não dá, desculpe, a diferença é evidente. Algo no corpo, no modo de falar, de pensar. A mulher é coisa única: tentativas de imitá-la resultam apenas num arremedo, numa caricatura. É por isso que acho o travesti uma figura dramática, meio melancólica- se por um lado há toda a irreverência típica, por outro há o drama de se ter nascido num corpo errado.

Há várias teorias. Corpo de um gênero abrigando alma de outro etc., não importa. O que acho é que todos têm o direito inalienável de buscar sua felicidade, e se isso significa mudar de corpo, que seja. Mas que esse conflito "corpo x alma" é cruel, não há dúvida.

Mas, como ia falando: dá pra diferenciar. A pessoa pode voluntariamente optar, mas dizer que não percebeu, que foi enganado, é hipocrisia.

Estou lembrando disso porque, certa vez, eu estava com meu amigo Rodolfo na orla de Copacabana, voltando do boteco. Daí eu vi a moça, mas logo captei. Rodolfo não: abriu sorriso, cheio de amor pra dar. Estava já "alto", mas isso não é desculpa: eu também estava...Ela se aproximou, eu encostei num canto, na esquina, para observar de longe. Ela veio rebolando, malemolente, Rodolfo lá, paradão, sorrisinho bobo nos lábios. Daí ela encostou no gelo baiano. Insinuante. O garanhão não se conteve, é claro, e foi pra cima. Ela apertou-lhe os bagos por cima da calça, piscou, e fez sinal com a cabeça para que ele a seguisse.

Estava sendo divertido, mas tive pena (não sei se do Rodolfo ou do travesti). "Psiu", chamei, "ô Rodolfo, deixa disso". Ele me olhou confuso. Cacete, esse cara tava mesmo mal. Na época eu era forte pra bebida, era isso, a turma toda arriava primeiro, daí o sóbrio aqui tinha que salvar os outros. Decidi ser mais incisivo: "Sai dessa, é homem, rapá!". Era para o próprio bem dele, ia me agradecer depois. Isso tudo, claro, na frente dela. Rodolfo olhava confuso, ora pra mim ora pra ela, cambaleando sem sair do lugar, ela ali parada, esperando o que ia acontecer.

A ficha caiu. "Vambora!", ele me disse, dando as costas (sem maldade, por favor) para a moça. Ela fez um sonoro "tsc!" de decepção e saiu requebrando no sentido oposto. Não falei nada e fomos descendo a rua, a Barão de Ipanema, se não me engano, quando subitamente sinto ele apertar meu braço. "Olha, não conte nada pra ninguém!". Tinha uma expressão trágica no rosto. "Vou colocar um anúncio no jornal, cara", e me desvencilhei com um safanão. Rodolfo ficou mais trágico e mais abobalhado ainda, lá parado, então me alcançou e me apertou o braço novamente: "Não conte nada pra ninguém!". A vontade era de rir, mas não se brinca com bêbado, ainda mais instáveis como Rodolfo. "Ok!", prometi.

E de fato não contei: mas foi pensando em mim mesmo. A turma, sacana que só ela, ia pegar no meu pé a vida toda por estar, numa madrugada na Avenida Atlântica, com Rodolfo e um travesti.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Viver é beijar a lona

5 comentários:
Ele, é claro, não acusou o golpe. Que os miolos foram chacoalhados por aquele cruzado de direita todos perceberam, mas ele continuou lá, em pé, cara de durão, guarda alta como convém. Guarda alta agora- caso contrário, o cruzado não tinha entrado. "Porra, levanta essa guarda!", o córner dele gritou, "levanta essa guarda ou entra outro!". Não sei se ele ouvia: todos nós aqui embaixo escutavam atentamente, mas vai saber o que se passa quando se está , no ringue. Há sempre a impressão de que o mundo se resume àqueles parcos metros quadrados, e a Humanidade, ela toda, a um só sujeito, o oponente, que também está lá em pé com cara de durão louco para fazer picadinho de você. Acho que nem do árbitro da luta a gente se dá conta, só quando ele se mete entre os dois e encerra o combate, impedindo que sejamos exterminados.

Bem. Guarda alta ou não, outro torpedo entrou: dessa vez, a pose de durão se desmanchou, desmoronou, digamos, quando ele foi ao chão. "Calma, garoto", pensei, "é só um knockdown, não um knockout". Nada está perdido.

A diferença? Em um caso a gente beija a lona e volta. Na outra, fica de vez.

E ele voltou, antes que a contagem do árbitro chegasse ao "10". A pose de durão voltou, até mais raivosa, mas o sangue já vinha em bicas. A plateia urrou, dessa vez de satisfação. Sabem apreciar uma bela luta, canalhas, adorariam assistir decapitações num coliseu romano. Acontece que eu também urrei, adoro cenas de recuperação.

Mas quando não é pra ser, não é. Apesar de toda bronca do córner, apesar de toda pose de durão, guarda alta e o escambau, lá vai nosso amigo de novo pra lona, massacrado pelos torpedos, mísseis, bombas (atômica e H!) que o adversário despejava sobre ele. Dessa vez a contagem chegou ao "10", já era, o árbitro levanta o braço do vencedor e a turma da sua academia fazia a algazarra. Já nós, da academia do vencido, corríamos para socorrê-lo.

O derrotado estava abatido. Não era só o roxo e o sangue no rosto: era algo dentro dele. Ser lutador em meio expediente é difícil. Há que se alimentar bem, há que ter material, suplementos, tempo, médicos, fisioterapeutas. Mas como, se se trabalha num subemprego? É por isso que os torpedos do outro são mais fortes. São vitaminados. Os do nosso amigo, que agora apalpa o nariz castigado, são desnutridos.

Cheguei pra ele e disse: "Ei, parceiro, não fique assim. Isso foi só um knockdown. A contagem chegou ao '10', mas você está aí, respirando, pode ficar sobre as duas pernas. É, cara, você não perdeu. Só a morte é a derrota, só a morte é o knockout".

Até lá, segue-se lutando. Enfrentamos a vida, guarda alta e cara de durão. Podemos beijar a lona, mas levantamos.

Acho que ele entendeu o que eu quis dizer, e sorriu exibindo o protetor bucal sanguinolento.

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