This story is fiction, and any events or near-similar events in actual life which did transpire have not prejudiced the author toward any figures involved or uninvolved; in other words, the mind, the imagination, the creative facilities have been allowed to run freely, and that means invention, of which said is drawn and caused by living one year short of half a century with the human race . . . and is not narrowed down to any specific case, cases, newspaper stories, and was not written to harm, infer or do injustice to any of my fellow creatures involved in circumstances similar to the story to follow.


(Charles Bukowski, "The Murder Of Ramon Vasquez")

terça-feira, 29 de maio de 2012

Febre

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Uma das coisas mais legais, se é que se pode falar assim, num surto de febre, são os calafrios. Eu gosto de sentir frio e talvez esse seja um complexo de morador dos trópicos escaldantes, e é claro que os calafrios de febre não são o frio natural, mas é engraçado tremer debaixo das cobertas enquanto está sol claro lá fora. De resto, é tudo fraqueza e prostração: mesmo pensar exige esforço hercúleo, e levantar pra comer, então, nem Hércules em pessoa.

Nesse dia a febre estava alta, logo, e os calafrios devidamente presentes. Mas não havia cama nem cobertas: estava no escritório e ainda tinha um compromisso. Ir ou não ir? Esqueçamos o dever? Mas era importante, e lutei -já não mais Hércules, mas também Perseu e Teseu e a mitologia toda- contra tudo (esqueci de citar as dores nas juntas) e rumei para o compromisso.

Foi aí que percebi uma coisa, enquanto chegava à Cinelândia. Conforme eu andava mais e mais, a sensação de mal-estar diminuía. O ato de andar deixava para trás febre alta e dores e catarro e calafrios. Experimentei apertar o passo, e vi que quanto mais me movimentava mais melhorava. Os médicos receitam repouso, mas me ocorre que na morte já há repouso o suficiente, e que estar vivo é justamente questão de movimento. O ato soberano de caminhar deixa para trás todas as mazelas, e então pensei como aquela lição era bonita, como o ato de continuar andando deixa pra trás as dores.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A Lagoa pela janela do quarto

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Lembro que olhar a Lagoa pela janela do quarto era bom. Um grande espelho de prata, ao fundo amplas montanhas e as antenas piscando. As luzes causaram susto na primeira noite que lá dormimos, na sala ainda desorganizada da mudança: piscando intermitente nas paredes, davam um ar espectral. Mas tudo compunha o mesmo grandioso cenário.

Dos anos em que morei lá, a primeira vez que olhei a Lagoa pela janela foi especial. Era já entardecer, o espelho de prata meio áureo-brônzeo, pessoas lá embaixo passando em cooper. E, na cobertura do prédio vizinho, uma moça -morena e ainda adolescente, short e top minúsculos- recolhia as roupas no varal. Era a empregada doméstica da casa, pela desenvoltura com que lidava com as tarefas, do varal passando à vassoura e daí para os cuidados com os vasos de planta.

Por acaso há prazer voyeurístico maior, que observar uma moça realizando afazeres domésticos tendo ao fundo o sol se pondo sobre a Rodrigo de Freitas argênteo-áureo-brônzea?

Tudo compunha o mesmo grandioso cenário, a moça, amplas montanhas, antenas piscando. E o cooper lá embaixo, se você prefere visões mais triviais.

sábado, 19 de maio de 2012

Fantasmas forenses

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Já passavam das dezenove horas mas ainda havia transeuntes, o centro do Rio é assim de sol a sol. Não para nunca. Mas a Avenida Antônio Carlos, especificamente na altura do prédio do Fórum, estava às moscas. E muito escura: talvez um poste estivesse queimado, mas era um breu profundo, intensificado pelas copas das árvores. Enquanto descia pelo quarteirão, olhava o prédio de instalações modernas. Mesmo no escuro era imponente, menos do que seria se fosse um austero "Palácio da Justiça" barroco, mas ainda assim tinha sua majestade, o que é natural por se tratar da sede de um Poder.

Pois eu descia o quarteirão à sombra do Fórum, entre árvores pela calçada escura.

Muitas luzes lá dentro: os serventuários, como o centro do Rio, não param. Daí me pus a pensar em tantos processos que lá dentro repousavam, e então por acaso me vieram à cabeça histórias de cobiça e crime, de heranças e deserdações, de mágoas e rancores. Pensei nos assassinos citados diariamente, nos criminosos e pervertidos fichados, nas lágrimas e ranger de dentes, nos risos repugnantes dos oportunistas. Pensei em vaidade e em desespero, por ações perdidas por tão pouco, na insegurança dos jovens advogados e em clientes arruinados praguejando contra eles. Em condenações injustas, corrupção e má-fé. Pensei também em fortunas desfeitas e em imóveis perdidos, em ações de despejo e a angústia de não se ter aonde ir.

Pensei em tudo isso enquanto descia o quarteirão à sombra do Fórum. A calçada pareceu mais escura ainda, e as poucas árvores se avolumavam. Apertei o passo. Tive a impressão de passar por um local mal-assombrado, como um velho casarão, um antigo cemitério, apesar de toda a modernidade das instalações, engolidas, naquela hora da noite num centro do Rio que não para, pelo escuro que tomava a calçada.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Encostado nos carros no escuro da rua

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Encostado nos carros no escuro da rua, eu despejava ao celular tudo o que sentia, o tudo como expressão real, sensível (no sentido de tocável) do sentimento, "sentimento sensível", ficou ruim mas é isso mesmo. A redundância às vezes ajuda. E com Mirna eu era mais que redundante, era um disco em alta rotação, meu alfabeto não terminava no "z" pois voltava ao "a", o fim emendado no começo e tudo prosseguia ad infinitum.

Pois eu não me cansava de dizer que estava entregue. A entrega cabal do meu coração, vermelho e palpitante, nas mãos de menina. Um homem orgulhoso não pode entender o que é isso, o orgulho faz de tudo ridículo, mas quando a entrega é total nos despimos também do ridículo (aliás nos despimos tanto que sobra quase nada). Eu não me cansava de dizer que estava entregue, e repetia e repetia.

Pelo celular ela ouvia, ria e incentivava. Talvez a vaidade, de ter o coração de um homem em suas mãos, talvez o medo, de ter o coração de um homem em suas mãos. Mas nem um nem outro Mirna transparecia, e ouvia, ria e incentivava. E dizia que com ela estava sendo assim também.

Acho que foi um erro, lembrando hoje, ter reiteradamente repetido que estava entregue. Vaidade ou medo, não são sentimentos bons de estimular. Mas, e eu pensava essas coisas enquanto desligava o celular e caminhava para casa, uma vez entregue não se pode mais voltar atrás.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O poeta viajante

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muito bem assim, então
por ora
nada a fazer
senão
no saguão do aeroporto
escrever versos
em papel pardo

para trás já tudo
os versos não
estes leva-os consigo
na jornada
companheiros.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Paranoia na noite

2 comentários:
Precisei informá-lo mais uma vez: "-Não, o sujeito não está olhando pra você". Porque Rodolfo, quando encasquetava com algo, era capaz de passar a noite remoendo o assunto. Daí estava lá agora, em pé, tenso, olhando com o rabo de olho para o suposto adversário. O suor escorria pelas têmporas, a testa de veias dilatas brilhando como nunca. A cara de um verdadeiro assassino, e o suposto adversário, totalmente alheio a tudo, afinal o sujeito não estava mesmo olhando para Rodolfo.

Paranoia. O que fosse, não sou psiquiatra.

"-Rodolfo, relaxe. Dê seu copo pra eu encher". Álcool é relaxante, não é mesmo? Despejei mais cerveja para ele, que bebericava sem perder o suposto adversário de vista. E tudo corria na mesma, o barulho na rua defronte, a rua movimentada de bares onde estávamos, caixas de som pululando ao redor. Gente de todos os matizes. Pensando bem, não era mesmo um ambiente relaxante, com o álcool que fosse. Paranoicos como Rodolfo precisam de momentos serenos, como um chá das cinco com a vovó ou uma ária no Theatro Municipal, se é que alguém em sã consciência (repetindo, não sou psiquiatra) consegue imaginar Rodolfo num chá das cinco ou ouvindo ária.

O trabalho artesanal, entre os soldados orientais do passado, era incentivado. Para contrabalancear com toda a violência da guerra, um toque de sensibilidade em nervos graníticos. Arte acalma, álcool acalma, tudo acalma, e olhar as meninas passando também acalma bastante, e é o que Rodolfo deveria fazer ao invés de se preocupar com um suposto adversário lhe encarando.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Refresco aguado enquanto espero ela

2 comentários:
Esperava a ligação dela, impacientemente. Passado o encontro, com companheiros de uma força política, a ansiedade, esquecida momentaneamente, voltou com tudo. Despedi-me dos companheiros e tomei lentamente o rumo de casa, conferindo de minuto a minuto o celular, esperando o chamado, o recado, algo qualquer. Cinelândia, Passeio Público. E a fome (dela também, mas me refiro à do estômago), e parei em uma padaria. Salgados e pães muito pouco apetitosos, alimento pouco apetecível ao espírito; mas era tarde e outras opções não havia, era preciso mandar algo pra dentro, saco vazio não para em pé. Pedi um sanduíche de presunto, presunto azedo, percebi já nas primeiras mordidas, empurrei pra dentro o máximo que consegui ajudado pelo refresco aguado de maracujá. E retomei o rumo de casa.

Nada de Mirna dar notícias. Subia as ruas como um bêbado, cambaleando agora não só de fome como de enjôo, o sanduíche caíra muito mal no estômago. Mas é só o celular tocar e tudo passará, tem sido assim com ela, as pequenas coisas se tornam ainda menores quando se fala com Mirna. Mirna, a menina com o dom de apequenar todo o resto. Eu? O contrário, com ela me sentia grande.

Já em casa, no quarto. Recomposto, banho tomado, estirado na cama- e é agora que Mirna entra em contato, a mensagem direta na tela de brilho suave do celular, "você vai me ligar?", como não, minha menina, tudo se apequena outra vez e já estou cá discando os números.

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